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Supply Chain 4.0

Economia Azul: O mar precisa de inovação e desenvolvimento

Economia Azul

O Conselho da União Europeia propõe que uma economia azul sustentável deve firmar-se em quatro pilares: oceanos saudáveis, conhecimento, prosperidade e equidade social. Portugal, que no passado já foi o grande desbravador dos mares e oceanos, está no caminho para o desenvolvimento de uma economia marítima mais conectada com a inovação e a sustentabilidade, onde Governo, universidades e empresas privadas se unem em busca do conhecimento.

Em tempos normais, sem pandemia, o transporte marítimo é responsável por mais de 80% do comércio global e movimenta anualmente cerca de 13 mil biliões de euros. A frota mundial de navios é composta por 54 mil unidades que circulam pelo planeta a transportar todo o tipo de produtos, desde grãos a automóveis de luxo.
Em Portugal, em 2021, os portos comerciais do Continente registaram um movimento de 85,7 milhões de toneladas, um número apenas 1,6% menor do que em 2019, ano anterior à pandemia de Covid-19. Ou seja, mesmo com as restrições impostas por questões de saúde pública, o deslocamento de produtos através dos oceanos nunca parou, porque é parte essencial da manutenção das condições de vida das populações ao redor do planeta, inclusive com o transporte de produtos essenciais para o combate à pandemia. “Há inclusive quem diga que sem o transporte marítimo metade da população mundial morria de fome e a outra metade morria de frio”, sintetiza Álvaro Sardinha, Mestre em Direito e Economia do Mar e consultor especialista em economia azul e desenvolvimento sustentável.
No que diz respeito ao transporte de passageiros, este setor desempenha também um papel fundamental na economia e no comércio da União Europeia. O número total de pessoas que embarcaram e desembarcaram nos portos da UE foi de aproximadamente 420 milhões em 2018. Esse número leva em conta de que, na Europa, o transporte de passageiros é realizado principalmente por serviços de ferry nacionais ou dentro do bloco. Neste mesmo ano, o peso total das mercadorias transportadas de e para os principais portos dos países do bloco, em transporte marítimo de curta distância (short sea shipping), que exclui a movimentação de carga que cruza o oceano para outros continentes, foi de 1,8 mil milhões de toneladas.
De acordo com Álvaro Sardinha, a indústria do transporte marítimo (shipping), que inclui os navios, os portos e as operações logísticas associadas, constitui um pilar de suporte fundamental para todos os setores de atividade da economia azul. “Desta indústria dependem não só o transporte de carga e de passageiros, mas também outros setores de atividade que necessitam das suas infraestruturas e equipamentos. Encontram-se nesta situação a indústria da pesca, a aquacultura, as energias renováveis marítimas offshore, o turismo de cruzeiros e o turismo náutico, o apoio a atividades emergentes, além da construção, manutenção, reparação e conversão de todos os tipos de navios, embarcações e estruturas flutuantes”, explica.
Atualmente, as instalações portuárias assumem também um papel estratégico como polos de inovação e de investigação, com a localização de startups e instalações piloto para teste de tecnologias, nomeadamente navios autónomos e sistemas robóticos. Estes projetos de inovação desenvolvem-se de Norte a Sul de Portugal. No porto de Peniche, por exemplo, há a Smart Ocean, que trabalha projetos para o desenvolvimento sustentável da economia azul; em Sines – além do cluster industrial de produção de hidrogénio verde, do megacentro de dados e do cabo submarino de ligação direta de alta velocidade entre a Europa e a América do Sul – o porto tem recebido outros projetos na área da energia e tecnologia e deverá receber investimentos de cinco mil milhões de euros nos próximos anos.
Nestes projetos de economia limpa, a inovação, a digitalização, a descarbonização e a circularidade fazem parte do dia-a-dia da indústria do transporte marítimo. “É cada vez mais comum ouvirmos expressões como portos automáticos, ‘digital twin ports’, ‘green shipping’ e portos verdes. Importa ainda realçar a indústria do transporte marítimo deixou de ser um setor tradicional. De facto, esta indústria não poderia ser mais emergente e disruptiva, face aos desafios que enfrentamos na atualidade, como os conflitos entre nações, as alterações climáticas, o aquecimento global e a poluição e o lixo”, resume Álvaro Sardinha.

“É cada vez mais comum ouvirmos expressões como portos automáticos, ‘digital twin ports’, ‘green shipping’ e portos verdes. Importa ainda realçar a indústria do transporte marítimo deixou de ser um setor tradicional”
Álvaro Sardinha, Mestre em Direito e Economia do Mar e consultor especialista em economia azul e desenvolvimento sustentável

De acordo com dados divulgados pela Conta Satélite do Mar (elaborada pelo Instituto Nacional de Estatística e a pela Direção-Geral da Política do Mar) sobre o período 2016-2018, o agrupamento das atividades económicas dos portos, transporte e logística marítima, só por si, foi responsável por mais de 10% do valor acrescentado bruto (VAB) total gerado na economia do mar nacional e mais de 6% do emprego azul. Em Portugal, o setor do turismo lidera os números da economia marítima: é responsável por 43% do VAB e pela criação de mais de 72 mil postos de trabalho.
Os números devem aumentar nos próximos, já que a pandemia de Covid-19 está a ficar para trás. Neste contexto de retoma do crescimento económico e das viagens de turismo, acentuam-se também as discussões para a produção de conhecimento e bens para o desenvolvimento sustentável da economia marítima e a proteção dos mares. Esses temas foram objetos de discussão de dois importantes eventos que aconteceram nos primeiros meses de 2022, em França. A Cimeira dos Oceanos, realizada em fevereiro, com líderes de vários países, e o Fórum Oceano, realizado em março, num encontro bilateral entre os representantes franceses e portugueses, buscaram convergência para a promoção de uma Economia Azul sustentável.
Neste último evento, o Ministro português do Mar, Ricardo Serrão Santos, destacou a necessidade de se investir mais e melhor em ciência e tecnologia para a geração de prosperidade através da inovação e para a restauração da saúde dos oceanos. “A complexidade dos fenómenos aos quais estamos confrontados exigem informações científicas fiáveis para apoiar negociações políticas claras, não podemos negociar sobre o clima ou decidir uma moratória, não há sindicatos ou confederações que representem estes fenómenos, a nossa ferramenta é o conhecimento científico e a mudança de comportamentos”, declarou o ministro.
Segundo o professor Sérgio Leandro, diretor da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Instituto Politécnico de Leiria, os oceanos oferecem uma grande possibilidade económica para o desenvolvimento de novas tecnologias e empresas que possam a surgir no contexto de economia do mar e que vão além do contexto tradicional da pesca, da aquacultura e da construção naval. “A própria biotecnologia, no futuro próximo, naquilo que seja a exploração de compostos de origem marinha para a aplicação na indústria farmacêutica ou médica ou na própria indústria alimentar, onde temos muito a aprender”, exemplifica o professor.
Para Sérgio Leandro, ainda há pouco conhecimento da capacidade dos oceanos. “A medida que vamos conhecendo mais sobre a biodiversidade dos oceanos e a composição dos organismos dão-nos aqui pistas para novos compostos e novos produtos de base natural, excluindo ao longo do tempo os compostos de síntese química, que são menos favoráveis para a saúde humana. À medida que o conhecimento aumenta, vão aumentar as possibilidades de crescimento da economia do mar enquanto fonte de recursos”, explica o diretor do Politécnico de Leiria.

“À medida que o conhecimento aumenta, vão aumentar as possibilidades de crescimento da economia do mar enquanto fonte de recursos”
Sérgio Leandro, diretor do Politécnico de Leiria

Apesar da necessidade de mais inovação, os números relacionados à economia do mar são positivos para Portugal e representam 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB), 5% das exportações e, aproximadamente, 4% do total de empregados. Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) são referentes a 2018. Para os próximos anos, o Governo vai investir 87 milhões de euros, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), em centros de investigação e de desenvolvimento de produtos para a economia do mar no Algarve, Lisboa, Oeiras, Peniche, Aveiro e Porto.
De acordo com a Estratégia Nacional para o Mar (ENM) 2021-2030, o Governo português pretende aumentar em 30% o emprego na economia azul nacional e garantir que 100% dos portos comerciais de pesca e marinas apresentem sistema de gestão ambiental até 2030. Até o final da década, o Governo quer, também, incentivar o desenvolvimento científico relacionado à economia do mar, aumentando em 50% o número de mestres e doutores nas áreas ligadas ao oceano e aumentar em 60% o número de infraestruturas ligadas ao mar no Roteiro Nacional de Infraestrutura de Investigação de Interesse Estratégico (RNIE).

Apesar da necessidade de mais inovação, os números relacionados à economia do mar são positivos para Portugal e representam 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB), 5% das exportações e, aproximadamente, 4% do total de empregados.

A ENM, no que refere à proteção ambiental e ao desenvolvimento saudável, vai ao encontro de um estudo publicado em 2021 pela revista científica Nature e elaborado pela organização ambiental Pristine Seas. De acordo com o relatório, uma proteção firme de pelo menos 30% dos oceanos até 2030 poderia contribuir para um fornecimento mais abundante e saudável de peixes e mariscos e constituir uma solução natural e barata para enfrentar as alterações climáticas a resolver as crises climáticas, alimentares e de biodiversidade.
O principal desafio para a década é encontrar o equilíbrio entre o desenvolvimento económico, o investimento em inovação e tecnologia e a promoção de uma economia marítima sustentável. “Como é que nós podemos manter uma atividade da pesca sem colocar em causa os stocks peixeiros num futuro próximo, como nós podemos desenvolver o turismo costeiro sem colocar uma elevada pressão humana nessas regiões”, sintetiza Sérgio Leandro.
O Conselho da União Europeia vai além e faz um planeamento para os próximos 30 anos. O Conselho visa assegurar que a UE promova uma economia moderna, eficiente na utilização dos recursos, resiliente, competitiva e sustentável, em que, até 2050, a biodiversidade seja conservada, restabelecida e utilizada de forma sustentável.

O desenvolvimento económico vem das águas

Nos últimos anos, Portugal está a destacar-se na investigação e produção de conhecimento e de alternativas para a utilização dos recursos marítimos para o desenvolvimento económico. No Porto de Sines está a ser desenvolvido um projeto de produção de macroalgas, que podem ser utilizadas para diversas finalidades, como a produção de rações e alimentação animal, além da produção de bioplásticos, cosméticos e produtos farmacêuticos.
Conforme nota divulgada pela Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS), a produção se beneficia das características físicas e geográficas da infraestrutura do Porto de Sines sem colocar em causa a operacionalidade portuária. O projeto está em fase de testes, que durará um ano, e incorpora a temática da sustentabilidade no plano estratégico do porto, “que prevê o desenvolvimento do conceito Green Port, nas dimensões energética e ambiental, assim como o apoio a stakeholders que promovam modelos de negócio orientados para a descarbonização da economia”.
Mais a norte, em Peniche, outra proposta para o desenvolvimento sustentável da economia azul com base no conhecimento e na inovação é o Smart Ocean. O projeto tem o objetivo de potenciar a implantação de um ecossistema de inovação em torno dos recursos marinhos e construir um espaço onde a ciência, a tecnologia, a inovação e o empreendedorismo se vão unir para criar ideias, soluções e oportunidades.
Para o professor Sérgio Leandro, que também é coordenador Científico do Smart Ocean, o projeto será um agente dinamizador e alavancador da economia do mar. “Nós queremos criar condições para a incubação de start ups, mas também a incubação de pequenas e médias empresas que trabalham o mar de forma incubadora, ou seja, ideias disruptivas para a circulação de recursos do mar que possam ter o apoio local e uma infraestrutura de interface entre a academia, as entidades oficiais e os próprios empresários”, explica. Nos próximos anos deverá nascer o edifício Smart Ocean, dentro da zona portuária de Peniche. O local poderá afirmar-se como um polo de inovação ligado ao mar.
Portugal tem, ainda, projetos nas áreas de mobilidade e infraestrutura. Em Aveiro, um ferry elétrico deve ser concluído até ao final de 2022 e vai substituir o ferryboat entre S. Jacinto e o Forte da Barra. Além de aumentar em 90% a capacidade de transporte de passageiros, o ferry elétrico vai contribuir com zero emissões de CO2 para a atmosfera (acabando com a emissão anual de 300 toneladas de CO2 pelo atual Ferry), vai reduzir em cerca de 30% o consumo energético (face ao atual Ferryboat), vai ter níveis baixos de ruído e mais conforto para os passageiros.
A utilização das águas para turismo é outra forma de explorar economicamente de forma sustentável as fontes naturais. As atividades nos Rios Tejo, em Lisboa, e Douro, no Porto, estão a recuperar a força após uma queda brusca em 2020, ano em que a Covid-19 chegou a Portugal. Em 2021, quase 280 mil pessoas utilizaram a via navegável do Douro, no Porto. Apesar do aumento de 23% em relação ao ano anterior, os números do Douro estão bem aquém dos 1,6 milhões de pessoas que fizeram turismo pelas águas do rio em 2019.

Em 2021, quase 280 mil pessoas utilizaram a via navegável do Douro, no Porto. Apesar do aumento de 23% em relação ao ano anterior, os números do Douro estão bem aquém dos 1,6 milhões de pessoas que fizeram turismo pelas águas do rio em 2019

A criação de estações náuticas em diversas regiões do país, inclusive no interior, também está a contribuir para o desenvolvimento sustentável da Economia Azul. Atualmente, existem 27 estações náuticas em Portugal. O Fórum Oceano está a contribuir na implementação de mais 15 estações nos próximos dois anos.
Integradas nos objetivos para o desenvolvimento do turismo em Portugal, as estações náuticas são um projeto em constante desenvolvimento, segundo António José Correia, Coordenador da Rede de Estações Náuticas em Portugal. Elas “são, acima de tudo, espelho de como um só produto pode incorporar o melhor que uma região tem para oferecer, trabalhar na defesa do património e identidade cultural, e de como o trabalho em rede pode potenciar o melhor que o país tem para mostrar”, acrescentou.
De acordo com o Fórum Oceano, as estações náuticas concedem uma oferta diversificada de atividades aquáticas em diferentes regiões geográficas que permite criar oportunidade para consolidar as estratégias de eficiência coletiva para o Cluster do Turismo. As estações revelam um pacto com a sustentabilidade e o turismo nacional, auxiliam no combate à sazonalidade do turismo nas regiões, promovem a oferta turística e asseguram a introdução das camadas mais jovens na prática de atividades náuticas.
As estações náuticas são um bom exemplo da interioração de projetos voltados à economia do mar e que podem ir além da zona costeira. Para Álvaro Sardinha, a localização física da atividade não a condiciona ou a exclui da economia do mar. “Um outro caso é a Suíça: um país que não tem acesso ao mar, mas que tem companhias marítimas no seu território”, exemplifica.

Desenvolvimento além-mar

Segundo dados das Nações Unidas, anualmente, a economia marinha tem uma receita estimada entre três e seis mil biliões de dólares. Isso inclui emprego, serviços ecossistémicos fornecidos pelo oceano e serviços culturais. Estima-se também que a pesca e a aquacultura contribuam com cerca de 100 mil milhões de dólares por ano e cerca de 260 milhões de empregos para a economia global.

Segundo dados das Nações Unidas, anualmente, a economia marinha tem uma receita estimada entre três e seis mil biliões de dólares. Isso inclui emprego, serviços ecossistémicos fornecidos pelo oceano e serviços culturais

A Noruega é um exemplo de desenvolvimento na área da economia azul. A indústria oceânica é responsável por 70% das exportações do país. Segundo dados divulgados pelo Governo do país nórdico, diariamente, cerca de 42 milhões de refeições de frutos do mar noruegueses são servidas em todo o mundo, tornando o país também um centro financeiro para a economia global dos oceanos. As melhorias feitas pelo país nas últimas décadas na aquacultura fez com que até o mais famoso pra típico japonês – o sushi – utilizasse o salmão da Noruega.
Até há duas décadas, não era muito comum encontrar sushi de salmão porque os japoneses não consideravam o salmão do Oceano Pacífico suficientemente limpo para ser comido cru. No entanto, o salmão do Oceano Atlântico proveniente de aquacultura marítima era adequado para este fim, devido à sua origem norueguesa, que é considerada limpa e segura.
A aquacultura do salmão é apenas um exemplo de como os noruegueses conseguiram diversificar as atividades económicas relacionadas com o mar. “Eles sentiram a necessidade de diversificar as fontes de rendimentos dos oceanos e não é por acaso que eles são líderes mundiais na aquacultura do salmão e de outras espécies. É comum encontrar no mercado o salmão, o bacalhau e o camarão da Noruega, entre outros. Eles promovem muito bem todos os produtos do mar e criam essa atratividade em torno dos seus recursos”, afirma o professor Sérgio Leandro.
Outro país com forte desenvolvimento nas atividades económicas do mar é o Canadá. De acordo com o Governo canadiano, 20% da população vive em comunidades costeiras e as indústrias oceânicas de hoje geram mais de 30 mil milhões de dólares por ano. Nos últimos anos, o país fez investimentos históricos em inovação, sustentabilidade e proteção dos oceanos, o que resultou em litorais e comunidades costeiras mais limpas e resilientes, melhor preparação para os desafios ambientais, parcerias mais fortes com comunidades indígenas e mais oportunidades de empregos e atividades económicas.
Em França, o transporte fluvial de mercadorias está a movimentar o rio Sena, em Paris. O projeto Green Dock será um parque logístico e fica a apenas cinco quilómetros do centro de Paris e bastante próximo do principal aeroporto de França, o Charles de Gaulle. Com a pretensão de ser um porto marítimo e fluvial, o principal objetivo do Green Dock é desenvolver um conceito de logística descarbonizada. Cerca de 250 empresas já escolheram a área em função da localização do porto e da oferta multimodal, que inclui a combinação dos modos fluvial, marítimo, ferroviário e rodoviário.