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Opinião

Inflação, taxas de juros e… especulação

Inflação

Qual será o verdadeiro impacto das constantes subidas dos preços na economia? Sobem os valores dos bens e serviços, sobe o preço do dinheiro, desce o poder de compra. As famílias ficam numa posição difícil.

As subidas de inflação de cerca de 8%, com o sector dos combustíveis com aumentos de 30% ou 40% e as taxas de juro com subidas de 0,5 pontos percentuais de cada vez, que se traduzem em valor substanciais nos créditos, nomeadamente o da habitação no caso dos particulares, mas também nas empresas, inundam a economia de retração no consumo, algo que terá sido das melhores alavancas em Portugal no durante e sobretudo pós pandemia.

Na teoria económica, o tratamento para a “doença” da inflação é a subida da taxa de juro. Será. Mas o mais importante será também, entender porque surgem fenómenos excecionais inflacionários, “justificáveis” primeiro pela pandemia e depois pela guerra. Aparentemente qualquer um deles tem de facto um peso forte na atividade geral, mas a tremenda especulação que acontece no seu seguimento é um dos fatores mais importantes presentes nestes aumentos e, sejamos sinceros, são tudo menos racionais ou lógicos. Claro que o senhor José que teve um aumento (já especulativo) no seu combustível, fertilizantes e outros produtos, para tratar e cultivar o seu trigo no Alentejo, terá de aumentar o preço. Não tem como não o fazer e até porque “se todos o fazem!?”. Mas, se a montante fosse tida em conta a real necessidade de aumento de preço e não a especulativa, a jusante o aumento refletido no consumidor final seria bem menor e o senhor José, no meio desta cadeia, aumentaria também, mas apenas o essencialmente necessário para equilibrar as suas contas.

De facto, no final da cadeia, é perturbador verificar que os aumentos existentes em produtos de primeira necessidade são de uma dimensão totalmente distinta dos 8% atrás mencionados. Algo que os regulamentadores dos sectores deveriam analisar e balizar. No mercado aberto e livre, não pode valer tudo, pois em poucos meses andaremos todos em cuidados paliativos. A irracionalidade dos mercados é apenas explicada pela especulativa tomada de atitude de alguns players e essa irá tornar as economias dos países asfixiantes, sobretudo as mais frágeis. Não é possível que o barril de petróleo, agora a transacionar a um valor mais baixo do que o praticado a 23 de fevereiro, não seja tratado da mesma forma para baixar o custo do combustível, que se mantem 20 a 25% acima do valor desse dia. Lamento, mas continuo a não conseguir entender.

Outro exemplo ocorre no valor imobiliário, que subiu exponencialmente em Portugal, mesmo nos locais normalmente menos valorizados. Essa tendência que acontecia nos últimos anos, com a subida das matérias-primas, agudizou-se ao ponto de imóveis subirem 30%!? Será isto racional e pode a economia absorver esta volatilidade? Acredito que sim, mas com grande prejuízo para a classe média e média baixa. Sendo sério analisar as subidas de preços das matérias-primas e combustíveis, já não é sério o aumento final do imobiliário que em pontos percentuais supera em muito o custo absorvido no sector e, ainda mais curioso, a subida dos valores dos terrenos, para dar apenas um exemplo flagrante da especulação e não da racionalidade. Onde está o custo dos combustíveis ou das matérias-primas nesta transação?

Se virarmos a agulha para a cadeia logística, percebemos a dimensão que este custo acarreta para toda a cadeia de abastecimento. E nesta, o ditado popular assenta que nem uma luva: quem conta um conto, acrescenta um ponto. Ou seja, adaptando: quem conta um custo, acrescenta um “tusto” e sem qualquer pudor. De facto, os tempos são de enorme incerteza. Existem várias crises no horizonte, para além das que já ultrapassamos. E se há uma crise, sobem drasticamente os preços, sobem as taxas de juro para conter a inflação. Na logística, a subida dos combustíveis e preços de transporte em geral e em particular o contentorizado originaram enorme incerteza e sobretudo atraso na chegada de matérias-primas e exportação mais rápida.

No futuro próximo, apesar de alguma acalmia nesta área, as restantes incertezas promovem aumento no receio dos consumidores que naturalmente se retrairão. E só assim, provavelmente, a inflação, realmente estagne, mas, por outro lado, stocks tenderão a crescer e o escoamento do produto em geral originará mudanças talvez mais repentinas e ajudem a inflação a diminuir mais um pouco. A cadeia logística de abastecimento terá um papel fundamental se o mercado perceber que não aumentando preços, pelo contrário, se conseguir retrair esses valores, trará a breve prazo frutos em termos de escoamento de produto e respetiva rotatividade na cadeia de abastecimento. Assim todos os players do sector olhem para esta atual difícil situação como uma oportunidade de ajustar, equilibrar e reposicionar estratégias.

Especulemos sim, positivamente, no sentido da melhoria das condições de negociação, procuremos (todos os intervenientes na cadeia de abastecimento), operacionalizar as melhores estratégias, contendo os preços justos e adequados. Especulemos sim, positivamente, para contribuirmos para a melhoria contínua, para manter qualidade nos produtos e serviço da cadeia de abastecimento e especulemos ainda, sobre como conseguimos reduzir custos, nomeadamente os que têm origem no desperdício ainda existente nas empresas e com isso manter custos equilibrados e não perdendo valor no produto, conseguindo manter margens sem aumentar desmesuradamente preços. É essencial controlar custos pela eliminação do desperdício.

A diversificação de mercados e a procura da exportação será sempre a válvula de escape que as empresas devem procurar, mesmo a exportação sob a forma de turismo, que permite rápida entrada e circulação de dinheiro no mercado. Este sector não está dissociado de outros e agrega muito valor às cadeias de abastecimento internas. Deve ser explorado para auxiliar em tempos de dificuldade que se adivinham. Adicionalmente procuremos que as incertezas do ambiente externo se transformem em pontos fortes nas empresas e que estas encontrem as oportunidades para que possam contribuir para a estabilização dos preços e a retoma seja uma certeza. Embora estes sejam desejos sinceros, a realidade, temo, será bem diferente.