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Energia e sustentabilidade

A (r)evolução da última milha também é elétrica

(r)evolução

As empresas estão de forma crescente a apostar em veículos elétricos para realizarem a distribuição dentro das cidades. O ambiente ganha com menos emissões de CO2 e menos ruído, e as empresas melhoram a sua gestão financeira.

A estratégia de sustentabilidade é hoje um documento imprescindível nas empresas, seja qual for o seu ramo de negócio e o seu impacto ambiental. Contudo, aquelas que utilizam transportes para, por exemplo, distribuir mercadorias sentem-se ainda mais compelidas a reduzir a sua pegada carbónica. Atuam em várias frentes e uma delas é a substituição da frota de veículos a combustão interna para automóveis elétricos a bateria. A distribuição nas cidades, a chamada última milha, é hoje feita cada vez mais com veículos elétricos e os ganhos apontados pelas empresas são múltiplos e vão além das mais-valias ambientais.
Desde o final de fevereiro deste ano que o ALDI faz a distribuição diária de produtos nas suas das lojas da Grande Lisboa com um camião elétrico. O veículo tem uma autonomia de 180 quilómetros e uma capacidade máxima de 26 toneladas (capacidade de transporte aproximada de 18 paletes standard), conta ainda com um motor de frio 100% elétrico e apresenta como principais características o seu baixo ruído e os circuitos independentes de reduzido consumo energético.
“A introdução deste camião na nossa frota vem reforçar a preocupação e o foco existentes em todas as vertentes da nossa atividade, bem como na dos nossos parceiros, no que respeita à sustentabilidade do transporte. Este é um projeto-piloto que tem argumentos iniciais muito fortes e o sucesso da sua operação veio corroborar isso mesmo”, disse André Fradinho. O managing director Supply Chain do ALDI acrescentou ainda que “tem sido uma experiência enriquecedora para este tipo de tecnologia e temos recebido um feedback positivo por parte da população, principalmente nas imediações dos locais de descarga desta viatura, que, graças ao seu baixo ruído, acaba por não perturbar quem vive perto das nossas lojas no centro de Lisboa”.
A Sociedade Central de Cervejas (SCC), através da sua empresa de distribuição Novadis, tem vindo também a apostar em veículos mais amigos do ambiente, sejam eles a gás, híbridos ou 100% elétricos (desde as 7,2 toneladas até às 19 toneladas).

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“A introdução deste camião na nossa frota vem reforçar a preocupação e o foco existentes em todas as vertentes da nossa atividade, bem como na dos nossos parceiros, no que respeita à sustentabilidade do transporte” André Fradinho, ALDI

Luís Velosa, responsável de Logística da Novadis, afirmou que “a nossa experiência com o uso de veículos elétricos, direcionada para os serviços de distribuição de última milha, tem sido muito positiva. Nesta etapa final do transporte em que a mercadoria sai do centro de distribuição para o cliente, conseguimos, hoje, uma performance em termos operacionais muito similar ou igual àquela que tradicionalmente temos com veículos de combustão”.
autonomia, frequência de carregamentos, planos de manutenção, renovação, etc.”.  Em 2023, a Novadis prevê acrescentar à frota outras tipologias de viaturas elétricas ligeiras, furgão e chassis cabine.
“A estratégia é acelerar a transição dos veículos ligeiros de 3,5 toneladas (última milha) e continuar gradualmente a substituição de alguns pesados”, disse Luís Velosa. Estes objetivos são sustentados por diferentes razões, como explicou o responsável da Novadis: “Em primeiro lugar a maior oferta, sobretudo no segmento do furgão com autonomias acima dos 250 quilómetros e que permitem uma utilização semelhante ao gasóleo. Também nos ligeiros chassis cabine (a nossa preferência), começa a existir uma oferta mais alargada com autonomias que vão desde os 160 quilómetros até os 180 quilómetros. Os circuitos citadinos permitem aos veículos elétricos efetuar mais quilómetros, isto porque estes veículos contam com uma tecnologia designada por sistema de travagem regenerativa, que significa que cada vez que o condutor deixa de acelerar ou trava, o motor elétrico passa a atuar como gerador permitindo assim recarregar as baterias. Por outro lado, a estrutura de carregadores é menos ‘pesada’, permitindo que estes veículos possam ser carregados a 7,4 kwh (oito horas) ou a 22 kwh, o que nos permite carregar 100% em menos de duas horas”.

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O segmento dos veículos pesados acarreta mais desafios por um lado devido à autonomia e, por outro, pelo tempo de carregamento. Segundo Luís Velosa, “em relação ao carregamento deste tipo de veículos, além de algumas restrições em termos de potências energéticas disponíveis, para a opção dos 400 quilómetros de autonomia, que seja necessário equipar o veículo com baterias de 400 Kwh, o tempo de carregamento a 22 kwh é de 16 horas”.A estratégia da Novadis passa, deste modo, por acelerar a transição nos veículos ligeiros “onde já existe uma boa oferta com autonomias que não colocam em causa a operação. Nos veículos pesados vamos continuar a reforçar parcerias com as marcas fabricantes”.
Os CTT – Correios de Portugal são responsáveis pela entrega da correspondência em Portugal e fazem também distribuição de encomendas, o que exige, na maioria dos casos, que o carteiro se desloque num veículo. Os veículos elétricos integram a frota dos CTT desde o ano 2000. “Neste momento, contamos com a maior frota elétrica do País e reforçamos, desta forma, o nosso posicionamento quanto às questões ambientais, que tanto nos preocupam e para as quais damos um contributo diário, melhorando a qualidade do ar nos grandes centros urbanos e a experiência de condução dos nossos carteiros e distribuidores que percorrem diariamente as ruas das nossas cidades”, pormenorizou José Coelho, gestor de frota dos CTT.
Atualmente, o parque automóvel dos Correios de Portugal é composto por mais de 400 veículos movidos a eletricidade, dos quais 18 são híbridos, maioritariamente veículos ligeiros de mercadorias. José Coelho informou que “já foram encomendados 82 motociclos para distribuição zero emissões e anunciámos, recentemente, a aquisição de 160 Citroen AMI, que começarão a integrar a frota muito em breve. O primeiro semestre também ficou marcado pela chegada de 73 Peugeot e-Expert, que foram distribuídos por vários Centros de Entrega, o que nos permitiu começar a operar com os primeiros dois hubs totalmente elétricos, no centro da capital – Junqueira e Arroios –, estando já prevista a expansão a outros Centros”.
De referir que a frota é constituída não apenas com veículos elétrico ou híbridos, mas também bicicletas, motociclos, triciclos e quadriciclos elétricos.

“Aqueles que tradicionalmente foram identificados como obstáculos para investir nestas tipologias de veículos hoje começam a dissipar-se” Luís Velosa, Novadis

José Coelho adiantou que “os ligeiros de mercadorias (“carrinhas”) são usados para o transporte de maiores volumes, mas as bicicletas e os motociclos adaptam-se melhor a certas zonas das nossas cidades. Os recentes Citroen AMI, por exemplo, serão utilizados para a distribuição postal eminentemente em zonas urbanas, nomeadamente nas principais cidades portuguesas. As suas dimensões permitem um fácil acesso, inclusive circular nas ruas mais estreitas que caracterizam muitas cidades portuguesas, tornando-se fácil estacionar nas constantes paragens que os carteiros terão de efetuar”.
A DPD, empresa de distribuição, quer também dar o seu contributo para a descarbonização das cidades e mostrar que o setor dos transportes e da logística pode ser verde e contribuir para a redução da pegada carbónica. Olivier Establet, CEO da DPD Portugal, disse que acreditam que “é por aqui que o caminho tem de ser feito, e é por isso que temos investido em opções de entrega e recolha de encomendas sustentáveis. Foi por isso que, em 2021, investimos numa frota de veículos de entregas totalmente elétrica em Lisboa, sendo que este ano já alargámos esta medida ao Porto”. A DPD é uma das 30 empresas que aderiram, recentemente, ao Pacto de Mobilidade Empresarial de Braga, comprometendo-se com a implementação de um conjunto de ações que promovem uma mobilidade descarbonizada, multimodal e inclusiva nesta cidade, assegurando um maior bem-estar nas deslocações casa-trabalho e promovendo a melhor qualidade do ar e hábitos mais saudáveis. Olivier Establet explanou que “de forma geral, a utilização de veículos elétricos para a distribuição urbana é um passo que, na nossa perspetiva, é absolutamente fundamental que seja dado pelas empresas que utilizam o transporte de mercadorias. É nesta lógica que temos direcionado a nossa ação, porque acreditamos que todas as partes envolvidas ganham com uma entrega ‘mais verde’”.
A DPD em Lisboa tem uma frota de 55 veículos elétricos. Recentemente, o Porto também começou a ter estes veículos disponíveis. A Norte contam-se atualmente quatro viaturas elétricas, estando previsto o reforço da frota com mais 25 automóveis mais amigos do ambiente até ao final do ano 2022.

(r)evoluçãoPoupar o ambiente e nos custos operacionais
As empresas estão focadas nas suas estratégias de sustentabilidade ambiental, mas para a alcançar é necessário que haja também equilíbrio financeiro.
O ALDI estima que a utilização do camião elétrico, cujo sistema de refrigeração é também elétrico, bem como a plataforma de descarga, possa atingir uma redução anual de 67,8 toneladas de CO2.
A poupança financeira ainda não será muito acentuada, mas, neste momento, uma carga completa das baterias custa menos de 20 euros.
André Fradinho, managing diretor Supply Chain no ALDI, explicou que “estes equipamentos, devido à sua especificidade, ainda são comercializados a um preço de mercado elevado, o que torna a poupança de combustível e a manutenção associadas ainda insuficientes para serem consideradas como primeira opção no mercado dos pesados de mercadorias. Podemos adiantar que cada carga completa das baterias fica atualmente em menos de 20 euros”.
A DPD tem uma ferramenta onde congrega todos os dados, devidamente auditados por entidades externas. A informação recolhida permite medir o impacto das atividades nas emissões carbónicas e encontrar uma forma de as reduzir. “Se pensarmos apenas na frota elétrica de Lisboa, como exemplo, esta solução representa uma redução de 87% das atuais emissões de CO2 e 84% de NOx (óxidos de azoto), além de evitar perto de 330 toneladas de gases poluentes por ano”, adiantou Olivier Establet.
O CEO da DPD Portugal acrescentou ainda que as viaturas elétricas são mais caras do que os modelos a combustão interna, mas “os custos não se têm revelado tão elevados como imaginávamos”. O mesmo responsável concluiu, por isso, que “apesar de ainda ser cedo para estimarmos os custos de manutenção, dada a utilização ter menos de um ano, acreditamos que estarão em linha com os da restante frota”.
José Coelho, gestor de frota dos CTT, adiantou que “anualmente, só com a adjudicação dos 73 Peugeot E-Expert, são estimados cerca de 1,8 milhões de quilómetros puramente elétricos, o que representa cerca de 386 toneladas de CO2 evitadas.” Ao nível do combustível, a opção elétrica permite a eliminação do consumo de combustíveis fósseis, sendo estimada só para os 73 Peugeot E-Expert, anualmente menos 175.000 litros de gasóleo consumidos. Além do fator sustentabilidade, este dado “ganha especial relevância no momento atual, com os preços que se verificam atualmente ao nível do combustível. Adicionalmente, assistimos a uma redução bastante significativa das necessidades de manutenção preventiva e curativa com as consequentes deslocações à oficina aumentando a eficiência de uso da frota”, detalhou José Coelho.

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“É por aqui que o caminho tem de ser feito, e é por isso que temos investido em opções de entrega e recolha de encomendas sustentáveis” Olivier Establet, DPD Portugal

A Novadis utiliza o furgão Fuso e-Canter nas suas operações. Luís Velosa recordou que “o desenvolvimento deste tipo de veículo foi efetuado por intermédio de um projeto-piloto levado a cabo em seis cidades: Amesterdão, Berlim, Londres, Nova Iorque, Tóquio e Lisboa. No caso particular da cidade de Lisboa, onde foram utilizadas 10 viaturas, durante um período de 24 meses, foi possível observar uma poupança de emissões de CO2 de cerca de 83.570 kg comparativamente à utilização de 10 Canter a gasóleo em igual período de tempo”. O responsável de logística da Novadis concluiu ainda que “este é um caminho, cujos passos são importantes para a concretização da ambição de redução das emissões globais de CO2, em 30% (comparado com o ano base 2018) até 2030, assumida no Programa de Sustentabilidade Brew a Bettter World – Produzir um Mundo Melhor, do Grupo HEINEKEN, do qual o Grupo SCC é parte integrante”.
Ao nível dos custos, a utilização dos veículos elétricos ainda não é muito representativa, mas Luís Velosa identificou aos ganhos por exemplo ao nível do combustível e manutenção. “Na componente manutenção preventiva, analisando o impacto por veículo, atingimos poupanças ano acima de 50% aproximadamente. Em relação ao consumo de combustível, no que respeita à transição de gasóleo para eletricidade, traduz-se numa redução de aproximadamente 60% dos custos associados a esta rúbrica. Também calculamos um menor custo total de propriedade (TOC)”.

(r)evoluçãoGestão de carregamento
A gestão do carregamento pode levantar muitas dúvidas e receios, mas as empresas que já deram este passo em frente no futuro da mobilidade sustentável explicam que é um processo simples.
No ALDI foram definidas rotas que maximizam a produtividade do camião. André Fradinho, managing diretor Supply Chain no ALDI, partilhou que “desde o início que foram sendo definidas rotas, que permitiram testar a capacidade e autonomia deste camião, de forma a rentabilizar ao máximo a sua utilização. O carregamento é realizado no nosso recém-inaugurado Centro de Distribuição da Moita, entre uma a duas vezes por dia, consoante a utilização e necessidade”.
A estratégia da DPD para a alteração de carrinhas a combustão para carrinhas elétricas é de um carregador para uma carrinha nas instalações da empresa. A DPD investiu na adequação da infraestrutura elétrica dos armazéns para termos capacidade suficiente para carregar em simultâneo todas as carrinhas elétricas de cada armazém. Olivier Establet detalhou ainda que “as carrinhas podem carregar durante toda a noite e na hora de almoço podem dar mais um reforço de carregamento, aumentando assim a autonomia diária. Os carregadores instalados fazem também uma gestão ‘inteligente’ do balanceamento da carga, isto é, o sistema dá prioridades às carrinhas com menos bateria para assegurar um mínimo para todas as carrinhas durante a noite”. Todos os veículos estão também equipados com um cartão de carregamento que permite identificar em detalhe os consumos/carregamentos de cada carrinha e, em caso de urgência, podem ser utilizados na rede pública de carregamento.
A gestão do carregamento é adequada a cada segmento de frota, face aos segmentos diferenciados da frota CTT. “No caso dos veículos ligeiros de mercadorias, segmento mais exigente, a generalidade das cargas elétricas dos veículos é efetuada internamente através de uma rede de carregadores elétricos nos centros de entrega, aproveitando os períodos de vazio e super vazio para o efeito”, elucidou José Coelho.

“Anualmente, só com a adjudicação dos 73 Peugeot E-Expert, são estimados cerca de 1,8 milhões de quilómetros puramente elétricos, o que representa cerca de 386 toneladas de CO2 evitadas” José Coelho, CTT

O responsável dos CTT disse ainda ser natural “que o crescimento da frota elétrica venha a trazer desafios de gestão de carga elétrica nos edifícios onde exista limitação de potência elétrica ou nas situações em que a infraestrutura pelas limitações de espaço não permita adotar carregadores elétricos”.
As frotas de uso intensivo como a frota CTT têm “um enorme desafio com a transição elétrica que será superado, certamente, com o amadurecimento do mercado e surgimento de soluções que permitam garantir para a generalidade da frota, a carga elétrica dos veículos sem impacto no horário de produção ou gasto de tempo dos condutores neste processo”, declarou José Coelho.
Na Novadis, o investimento neste tipo de veículos está a ser acompanhado por um plano de transformação dos armazéns, onde o consumo energético adquire agora uma nova dimensão e passa a considerar diferentes sistemas de carregamento sempre em linha com a nova tipologia de veículos. Luís Velosa detalhou que “em termos das nossas estruturas optámos por soluções ajustadas à localização interna da frota (parking diurno/noturno ou cais de carga). Já na distribuição consideramos percursos e jornadas de execução. Neste último ponto, resulta fundamental a expansão nas cidades da rede pública de carregamento que passa também a ser um ponto a considerar dentro da nossa estratégia de construção de rotas”.

(r)evoluçãoExpansão é objetivo comum
O ALDI acredita na expansão da utilização de veículos elétricos na sua atividade. André Fradinho disse que “a utilização deste tipo de veículos tem potencial para se expandir para a distribuição regional e, principalmente, para os grandes centros urbanos, uma vez que acarreta muitas vantagens no que respeita à sustentabilidade e à responsabilidade social. O baixo ruído nas descargas – principalmente noturnas –, e a ausência de emissões de gases nocivos são, sem dúvida, argumentos muito fortes que pesam no momento de escolha entre um veículo a gasóleo e um veículo elétrico”.
A DPD está a trabalhar no sentido de expandir a utilização deste tipo de veículos a outras localidades. Olivier Establet adiantou que “ainda não é possível cobrir todo o país com apenas viaturas elétricas, dada a dificuldade em obter boas autonomias de bateria em termos de quilómetros percorridos. Mas sem dúvida que a expansão desta solução a outras cidades do país é primordial para a DPD, que mantém como grande objetivo contribuir para que estas se tornem 100% descarbonizadas e façam, assim, parte das cidades europeias que estão a liderar a mudança e a transição energética nas cidades”.
Os CTT admitem a vontade de continuar a integrar veículos elétricos na frota, recordando que os mesmos são mais amigos do ambiente e permitem uma poupança ao nível dos custos operacionais.
A Novadis quer também crescer na frota elétrica por forma a cumprir as suas metas de emissões de CO2. Luís Velosa concluiu que “aqueles que tradicionalmente foram identificados como obstáculos para investir nestas tipologias de veículos hoje começam a dissipar-se. Os últimos desenvolvimentos tecnológicos apresentados neste segmento permitem obter melhorias significativas na autonomia e ganhos paulatinos nas capacidades de carga deste tipo de veículos, sendo assim uma resposta cada vez mais viável para as nossas necessidades”.