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Opinião

MOBilidade Logística

Mobilidade logística

A nova MOB aqui está cheia de vida, com novo design, nova imagem e a mesma responsabilidade e rigor de sempre. A meu ver, esta atualização da Logística e Transportes Hoje para a MOB, afirma a mudança e regeneração para uma nova e apelativa revista, dando resposta à necessidade do mercado. Longa vida à MOB!
Nestes tempos, não é possível fugir aos temas que nos assolam de forma avassaladora e, por isso, neste artigo, sou obrigado a focar temas ou noções que normalmente deixo para outros especialistas. Mas tentando efetuar uma ligação coerente, diria que nunca a expressão mobilidade logística esteve tão em cima da mesa no século XXI como nestes dois últimos anos.
As razões infelizmente não são as melhores e são por demais conhecidas: Pandemia e a Guerra. Escrever estas duas palavras tem uma força tremenda. Na Europa ninguém pensava que renasceria um cenário de guerra como o que estamos a assistir neste preciso momento e, no mundo, algo tão letal como tem sido a Pandemia Covid-19, não tem comparação pela dimensão, desde a Gripe Espanhola há cerca de 1 século atrás. Da guerra, vemos hoje imagens coloridas, em direto a entrarem pelas nossas casas, que remetem para os documentários que ilustram os anos 40 do século XX. Todos nós, nunca havíamos experienciado nem uma nem outra situação limite a este nível. Esperamos que a pandemia tenha sido superada e se torne numa normal doença que, como todas, pode ser perigosa, mas não à escala que o foi em 2020 e 2021 e que a guerra possa dar lugar à paz e respetivo equilíbrio seja restabelecido.
Voltando à expressão “mobilidade logística”, estas duas disrupções que assistimos provaram que o ser humano é resistente e socialmente cooperante. Em ambas as situações, foi possível verificar operações logísticas de altíssima envergadura. Na pandemia, a que salta mais à vista é a do processo de vacinação à escala mundial, embora possamos enumerar situações relacionadas com montagem de locais de testagem, rápidas ampliações de hospitais e zonas dormitório, etc.; na guerra, poderemos apontar as operações logísticas inerentes às movimentações militares e táticas usadas no terreno – entraríamos por campos militares e de estratégia que não pretendo aqui ampliar – mas gostaria de salientar antes a enorme operação, quase espontânea, que na Europa está a permitir, por um lado, acomodar os refugiados em variados países e em condições de vida minimamente aceitáveis, e, por outro, fazer chegar à Ucrânia a ajuda elementar essencial. Tudo isto só é possível pelos fatores humanos que já referi e sobretudo porque existem características e líderes anónimos nestas operações que formam cadeias logísticas, rápida e eficazmente aplicadas.
A mobilidade logística toma por isso, por estes dias, uma dimensão ainda mais ampla do seu conceito. Com as perspetivadas alterações em termos energéticos, ou mesmo de matérias-primas que o conflito anuncia, a europa ocidental corre no sentido de encontrar alternativas. Os processos logísticos marítimos, aéreos e terrestres estão a ser relocalizados, mas sobretudo as alternativas ao nível dos pipelines de fornecimento energético, a importância dos estreitos e da circulação marítima e a ferrovia tem papel determinante na nova geostratégia global.
Novas rotas de escoamento de produto e de procura de matérias-primas, serão porventura encontradas, de modo a fazer face aos problemas que o conflito a leste gera no curto prazo. A Rússia e a Ucrânia são grandes produtores, exploradores e exportadores de petróleo, gás natural, trigo, milho, ferro, aço e outras diversas matérias-primas. Não tenhamos dúvidas que necessitamos de diversificar os nossos fornecedores e para isso precisamos dos novos caminhos logísticos. Devemos estar preparados para efetuar rápidas mudanças, e como sempre é ensinado em qualquer cadeira de gestão de compras ou procurement: devem existir sempre dois ou mais fornecedores em cada artigo ou serviço.
Neste contexto, importa salientar a importância da mobilidade na cadeia logística. Os temas que hoje menciono nesta reflexão estão na ordem do dia e é difícil fugir deles, mas olhemos para a mobilidade logística como a potencialidade de aumentar as proximidades e diminuir as diferenças, sejam geográficas, físicas ou mesmo digitais. De forma modal, podemos enumerar vários tipos de transporte, mas digitalmente o que podemos adicionar?
Existem hoje empresas que são líderes no mundo na sua área e não têm plataformas físicas. Gráficas, por exemplo, sem uma impressora ou um veículo de transporte, mas que recebem encomendas e conseguem fazer chegar o produto aos clientes em tempo record. Excelentes plataformas logísticas digitais permitem estas novas cadeias de abastecimento. No fundo, softwares que gerem (ou ajudam a gerir) toda a cadeia de abastecimento sem necessitarem de uma logística própria. Isto revela que empreendedorismo, cadeia de abastecimento e mobilidade física ou digital estão completamente interligadas. A supply chain 4.0 está aí no seguimento da indústria 4.0, como fulcro do desenvolvimento logístico desta década. Com a internet das coisas(IoT) à cabeça, mas também, inteligência artificial, cloud computing, integração de sistemas, partilha total de informação, as empresas dentro da supply chain aproximam-se e a mobilidade torna-se mais evidente por via dessa aproximação.
Na nossa realidade, as empresas necessitam do devido apetrechamento para que a tal resiliência anteriormente mencionada seja uma realidade, sempre que existem as disrupções externas. O ambiente externo à empresa é aquele que mais impacta de forma negativa e a ausência de uma dinâmica empreendedora agregada à mobilidade logística digitalizada nas empresas do sector, trará para as mesmas, problemas acrescidos difíceis de contornar. A evidente evolução no sector tem de ser acompanhada por todos e isso dará a robustez necessária para manter a mobilidade logística como uma das características essenciais da supply chain tornando-a mais elástica.
Claramente que as disrupções que mencionei no início serão combatidas pela ciência e pela diplomacia, respetivamente, ou seja, pela prevalência da humanidade, mas no que diz respeito a que nada falte em toda a cadeia de abastecimento, a melhoria e digitalização de processos é a prossecução de uma alteração que impacta positivamente na consequência das disrupções. A mobilidade logística faz parte do processo.
Este artigo não pode terminar sem que haja a referência e o desejo que a guerra termine de vez e que voltemos ao desenvolvimento das atividades económicas e melhoria das diversas sociedades, sempre com processos de mobilidade em curso, esperando que sejam de bens, produtos ou serviços e não de refugiados. Que prevaleça a paz!

“A evidente evolução no sector tem de ser acompanhada por todos e  isso dará a robustez necessária para manter a mobilidade logística como uma das características essenciais da supply chain”