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Editorial

Custo, inflação e lucro

Custo, inflação e lucro

Durante os últimos meses o mundo tem vivido em sobressalto. Finda a exigência dos períodos mais críticos da pandemia, pareciam existir no nosso horizonte de ideias bases sólidas para uma retoma do caminho normal, ainda que em contexto inflacionário. Porém, a guerra na Ucrânia pôs novamente a descoberto a dificuldade que o mundo tem para se adaptar a crises e viver com elas.
Com o aumento de custos da energia, com o petróleo a subir as suas cotações e o gás a chegar a valores históricos, muita da estratégia montada pelas empresas para
um cenário de recuperação teve de ser deitada ao lixo. No seu lugar foram desenhados cenários e esses servem agora de base para um dia a dia que transpira para lá do esforço o odor da ansiedade coletiva e desconfiança quanto ao inesperado.
Se até há alguns meses imperava a narrativa de um mundo VUCA, hoje vivemos com a certeza de que há um sucessor nesta lógica de caos que é a existência humana.
O contexto fez nascer, ainda sob o signo pandemia, o conceito de BANI, que, numa tradução livre, significa Fragilidade, Ansiedade, Não linearidade e Incompreensibilidade, os ‘sentimentos-base’ de uma nova sociedade que tem de lidar diariamente com o lado b de um mundo globalizado.
Assim, agora, o mundo exige-nos hoje que nos movimentemos de outra forma. Os planos empresariais devem servir apenas para ter uma perspetiva de curto prazo em termos de custos; a inflação é já uma certeza, pelo que devemos preparar-nos para o cenário menos otimista e redobrar esforços para evitar escaladas de preços. Por fim, o lucro. O norte de qualquer atividade empresarial deve ser olhado com ‘um manto de invisibilidade’, permitindo que o consumidor tenha perceção clara dos porquês dos bons resultados quando se encontra a sofrer.
E porque digo isto? Porque durante os últimos dias, e somos todos consumidores, muitos são os comentários que oiço de cidadãos que reclamavam (diria justamente) com os aumentos dos custos e, simultaneamente, avaliam os lucros empresariais para tentar vislumbrar lógicas de aproveitamento.
Em crise coletiva, e vivemo-la todos juntos nos períodos iniciais após a chegada inesperada da Covid-19, o mundo mostrou que pode haver uma lógica de comunidade em que os perigos e ameaças são divididos por todos, bem como as oportunidades e a esperança. Se seguirmos esta lógica, ninguém fica para trás e a atividade das empresas torna-se mais compreensível, partilhável e, como tal, alvo de menos descrença.