Quantcast
Opinião

CP e o investimento em mobilidade sustentável

CP

Face ao cenário de evidente défice que se vinha a verificar há já alguns anos, havia necessidade de recuperar os níveis de serviço do transporte ferroviário de passageiros, a fim de garantir o direito à mobilidade das populações e, em simultâneo, o desenvolvimento e a sustentabilidade da CP a médio e longo prazo.
Para essa recuperação, era fundamental promover a recuperação, renovação, fabrico e aquisição de material circulante e reforçar a capacidade operacional e funcional.
Por isso, foram definidas as orientações estratégicas que permitissem essa recuperação, plasmadas na Resolução do Conselho de Ministros nº 110/2019, de 27 de junho.
A partir daí, deu-se um processo de revitalização do serviço de transportes ferroviário de passageiro efetuado pela CP, recuperando-se os níveis de serviço do transporte ferroviário de passageiros em Portugal no curto prazo e, posteriormente, prosseguindo no sentido do desenvolvimento e sustentabilidade da empresa a médio e longo prazo.
Um dos principais processos aconteceu a 1 de janeiro de 2020, com a incorporação da EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário).
Este aspeto foi relevante, porquanto, a CP deixou de ser apenas uma empresa de transporte ferroviário de passageiros, passando a deter também in house competências em áreas como a manutenção, reparação, grande reparação e reabilitação de material circulante ferroviário, incluindo todas as atividades complementares, e bem assim em áreas como as de estudos e conceção de instalações oficinais, fabrico, reparação e manutenção de componentes e desenvolvimento de soluções informáticas.
Com esta incorporação, eliminaram-se todas as tarefas redundantes, aumentando-se assim a eficiência nas tarefas de suporte, assim como toda a carga burocrática necessária ao suporte da contratação/prestação de serviços (e.g. realização de contratos, faturação, auditoria de ações de manutenção, etc.), o que permitiu à CP prestar um serviço público de forma mais eficaz.
Na génese da decisão de fusão esteve também a recuperação dos índices de disponibilidade e fiabilidade do material circulante por forma a garantir elevados níveis de regularidade da operação, cumprindo níveis de serviço público fixados entre a CP e o Estado português.
Outro aspeto relevante foi a celebração do contrato de obrigações de serviço público com o Estado português, que é a base para a definição dos investimentos e das despesas operacionais necessárias ao cumprimento dos objetivos estratégicos definidos.

“A necessidade de aquisição de material circulante da CP para os próximos anos, estima-se em mais cerca de 750 veículos, apenas e só para substituir a totalidade dos veículos existentes”

Pretende-se assim estabilizar e tornar previsível a relação entre a CP e o Estado, ao contrário da prática anterior de pagamento de indemnizações compensatórias.
Foi, ainda, possível desencadear todo um processo de recuperação de material circulante histórico e assim fomentar o turismo ferroviário (seis carruagens, três veículos de apoio aos comboios históricos e uma automotora Allan de via estreita), assim como encetar um plano de recuperação de material circulante para o serviço público de transporte ferroviário de passageiros, recuperando-se cinco automotoras da série 2400, duas automotoras da série 3500, duas automotoras da série Allan, treze carruagens Schindler, nove carruagens Sorefame, nove carruagens ARCO, dez locomotivas da série 2600, duas locomotivas da série 1550 e quatro locomotivas da série 1400.
Todo este grande esforço de recuperação permitiu mitigar as verdadeiras necessidades, mas o que é facto é que o parque de material circulante da CP tem mais de 20 anos, com cerca de dois terços acima dos 30 anos e metade das unidades com mais de 40 anos, o que se traduz numa média de idade de 42 anos (o mais recente, data de 2002), o que torna evidente que terá de ser efetuada uma substituição a muito curto prazo de uma parte relevante da atual frota de material circulante da CP.
Além de envelhecido, o parque de material circulante é também muito escasso, o que acarreta enormes dificuldades no sentido de garantir uma operação que cumpra com qualidade os níveis de pontualidade e regularidade exigidos pelo Contrato de Obrigações de Serviço Público (CSP), por isso, não elimina a necessidade de aquisição de novos comboios.
A necessidade de aquisição de material circulante da CP para os próximos anos, estima-se em mais cerca de 750 veículos, apenas e só para substituir a totalidade dos veículos existentes, pois a frota atual da CP comporta na totalidade cerca de mil e cem veículos, isto tendo como pressuposto a reabertura da Linha de Leixões, a construção da Linha do Vale do Sousa, a nova linha de alta velocidade e o reforço da Linha de Sintra, face ao previsto no PNI2030.
Nesse sentido, está já em desenvolvimento o contrato de aquisição de 22 automotoras, 12 bimodo e dez elétricas, cuja primeira entrega se perspetiva durante o ano de 2025.
Foi também lançado um concurso para a aquisição de 117 unidades múltiplas, 62 unidades para os serviços urbanos e 55 unidades regionais.
As unidades para os serviços urbanos, serão afetadas (34) à Linha de Cascais para substituir o atual material circulante em serviço nesta Linha, sendo que 25 delas são bitensão, de molde que se possa fazer a transição dos atuais 1500 DC, para 25 KV/50Hz.
As duas séries de automotoras atualmente em serviço naquela linha têm, uma, cerca de 60 anos de serviço, e outra cerca de 70 anos de serviço, ou seja, já passaram a vida útil expectável há muito tempo;
No que diz respeito às restantes, serão 16 unidades para afetar aos serviços urbanos de Lisboa e 12 unidades a afetar aos serviços urbanos do Porto, com o objetivo de aumentarmos a capacidade nestes centros urbanos e assim darmos resposta à expectável aumento da procura.
Relativamente às restantes 55 unidades, elas serão afetas aos serviços regionais e destinam-se a substituir material circulante com mais de 50 anos de serviço (automotoras da série 2240), e a reforçar a oferta neste segmento de serviço.
Serão unidades múltiplas com 70 metros de comprimento, elétricas, permitindo, no que diz respeito às unidades para os serviços urbanos, velocidades máximas de 140 Km/h, e de 160 Km/h de velocidade máxima para as automotoras destinadas aos serviços regionais.
Destaca-se ainda, como relevante, que as unidades serão equipadas com o sistema ETCS nível 2, juntamente com um STM para Convel.
Isto significa que estas unidades estarão aptas a circular numa linha equipada com o sistema de segurança/sinalização standard europeu, mas através do um subsistema STM estarão também aptas a circular em linhas equipadas com o sistema Convel, que é o sistema de segurança existente na infraestrutura e no material circulante ao serviço em Portugal.
É importante que todo o novo material circulante passe a estar já equipado com o sistema ETCS, uma vez que a Infraestruturas de Portugal tem nos seus planos o upgrade gradual das infraestruturas com o sistema ERTMS – nível 2.
Seguindo a mesma lógica, as novas unidades estarão também equipadas com o sistema de comunicações dual mode, que inclui o sistema standard europeu – o GSM-R, e simultaneamente o sistema analógico português, o CP-N.
Por último, refira-se que o Sistema de Informação aos Passageiros, que está especificado para estas novas unidades, será compatível com o sistema NextStop, desenvolvido internamente pela CP.
Para além das necessidades para o tráfego nacional, pretende-se o reforço do parque de material circulante da CP para os serviços de longo curso.
Com tudo isto, a CP contribui para que Portugal atinja os objetivos assumidos no Acordo de Paris e na União Europeia, e também cumprir a sua visão como líder nacional de mobilidade integrada – simples, pessoal e sustentável e concretizando a sua missão de ligar pessoas e comunidades, de forma sustentada e alicerçada no modo ferroviário.