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Entrevista

“Transportes? Acho que o futuro tem de ser pensado em termos de multimodalidade”

Transportes

Na grande entrevista da segunda edição da MOB Magazine falamos com Tali Trigg e Christina Teokari, dois dos responsáveis do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (EBRD, em inglês), no projeto Green Cities, projeto que tem um investimento anual preparado de 5 mil milhões de euros. Estes especialistas dão-nos a sua perspetiva sobre como o mundo está a mudar… para mais verde, mostrando-se ambos otimistas quanto ao trabalho desenvolvido, mas não sem alertas claros: Não estamos a avançar tão depressa quanto devíamos face à premência dos efeitos das alterações climáticas. Confira a entrevista.

 

Poderiam explicar-nos um pouco melhor o trabalho que desenvolvem no âmbito do projeto Green Cities do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (EBRD)?
Christina Teokari:
O programa Green Cities começou em 2016, atualmente tem para investimento anual o valor de 5 mil milhões de euros. O Green Cities consiste em programas de investimento que permitem às cidades intensificar o ataque aos problemas ambientais mais prementes identificados por cada um destes municípios. A ideia é desenvolver planos que apoiam e permitem corrigir os problemas que as cidades enfrentam. O programa tem quatro componentes-chave: a primeiro é o apoio político, o segundo está relacionado com necessidade de apoio em termos de infraestrutura. O terceiro componente é a construção de capacidade, identificando pontos onde há falhas e ajudando as cidades a desenvolverem planos para os atacar. Por fim, conseguimos o acesso a instrumentos de green finance para lá do apoio do EBRD, ajudando as cidades a ‘navegar’ nesse ecossistema. No coração do programa Green Cities está o plano de ação para a cidade, um plano onde as cidades podem pensar estrategicamente, enumerar os desafios ambientais que precisam de ser tratados, os investimentos e políticas que precisam de ser trabalhados para tratar destes ‘problemas’. É uma abordagem de duas fases em que olhamos para os indicadores ambientais e diferentes setores e gizamos um plano para o futuro para atuar sobre estes problemas que as cidades enfrentam. Atualmente trabalhamos com uma rede de 53 cidades que estão em vários estágios do seu plano de Green Cities. Temos 20 cidades que já completaram este processo, 12 que estão a completá-lo e algumas cidades que ainda estão a trabalhar para começar esta viagem.

Têm uma extensa rede de cidades em que desenvolvem operações. Como identificam as cidades e projetos que o EBRD apoia?
Christina:
Temos uma rede de 53 cidades e a ideia é que exista um investimento gatilho por parte da cidade que motive o investimento do banco. O investimento feito pelo EBRD é feito com base no desenvolvimento verde do município. Depois o plano de ação é desenvolvido durante 12 meses com os múltiplos stakeholders a serem ouvidos. Queremos que a cidade e os seus habitantes estejam envolvidos neste projeto, que as empresas, privadas ou públicas, ONG’s, Universidades, etc, estejam todos envolvidos neste processo. A partir daí traçamos um plano de investimento ou de políticas públicas que é desenvolvido no âmbito do desenho desde plano e é aí que o EBRD pode ajudar com a sua experiência para o desenvolvimento desses projetos. Tivemos um projeto muito interessante em Tiblissi, uma das primeiras cidades a desenvolver o seu plano neste âmbito, e que agora tem um pipeline de vários projetos na área dos transportes, desde os autocarros, reabilitação do metropolitano, estamos a olhar para os diferentes modos e, porventura, iremos apoiar a mobilidade eletrificada. Por isso, temos uma abordagem multidisciplinar em várias áreas de intervenção do município. Até 2025, o EBRD quer ter 50% dos nossos investimentos no âmbito da green finance e outro aspeto importante da nossa ação é estarmos muito alinhados com os objetivos do acordo de Paris, algo que queremos implementar em todos os projetos que apoiamos até ao final deste ano. Estes são dois aspetos que desenvolvemos.

Depois de implementarem estes projetos acompanham as cidades para verificar se os ‘efeitos’ se mantêm?
Christina:
No programa Green Cities temos vários critérios de ilegibilidade que asseguram que os projetos são de âmbito verde. Temos um patamar relativo à redução de gases com efeitos de estufa e eficiência energética em todos os projetos que implementamos. Quanto ao plano de ação, a cidade monitoriza os indicadores verdes e como eles estão a melhorar com a implementação do mesmo.

Como é que o EBRD está a ajudar as cidades a abordarem problemas antigos trabalhando proactivamente para um futuro melhor?
Christina:
Com a nossa metodologia olhamos verdadeiramente para os problemas que estão na origem dos projetos. Observamos os diversos indicadores e questões que as cidades estão a enfrentar baseando-nos em dados concretos. Apoiamos também as cidades a olharem proactivamente para o seu futuro. No programa Green Cities tentamos estabelecer objetivos e metas que olham para o futuro. Um exemplo concreto está relacionado com o trabalho que realizámos em Varsóvia, na Polónia, em que desenvolvemos um plano de ação climática em conjunto com o plano Green Cities. Este plano não olhou apenas para os 10-15 anos que pode durar um programa EBDR Green Cities, mas também estabeleceu objetivos até 2050, por exemplo em termos da descarbonização e o que a cidade pode fazer para os atingir. Aqui houve muito planeamento e pensamento estratégico, mas isso acabou por ser trazido para o plano de ação com objetivos e ações muito concretas. É desta forma que trabalhamos nos problemas presentes das cidades, mas olhando também para o futuro dessas cidades.
Tali Trigg: É uma boa pergunta. De certa forma, em termos dos problemas das cidades tentamos ter uma abordagem data-driven ou abordar estas questões ambientais mais presentes, mas estando também a tentar ter planos proativos. Como trabalho, por exemplo, em mobilidade elétrica, a ideia de substituir um veículo a combustão é trabalhar parcialmente a questão, mas ficando longe do puzzle completo. Alguém disse que um problema de tráfego com um ‘veículo verde’ não deixa de ser um engarrafamento de trânsito. O que queremos tentar fazer é abordar os problemas de forma holística e com soluções integradas para que, como exemplifico com a eletrificação de uma frota automóvel, essa abordagem permita olhar para o problema das emissões zero e estar alinhado com as metas do acordo de Paris. É dessa forma que tentamos trabalhar proactivamente relativamente ao futuro das cidades.

“Com a nossa metodologia olhamos verdadeiramente para os problemas que estão na origem dos projetos. Observamos os diversos indicadores e questões que as cidades estão a enfrentar baseando-nos em dados concretos”
Christina Teokari, Green Cities at European Bank for Reconstruction and Development

Hoje temos muita tecnologia que possibilita aos decisores políticos tomarem a melhor decisão possível relativamente aos problemas coletivos. Sente que, fruto deste aspeto, teremos cidades diferentes, melhor preparadas para os desafios das alterações climáticas e objetivos de sustentabilidade? Qual é o papel da tecnologia neste âmbito?
Tali:
É também uma boa pergunta. Esperamos que a tecnologia, claro, possa ajudar. O que tentamos fazer em termos de tecnologia está relacionado com três aspetos: a tecnologia pode ser muito mais acessível e de acesso democratizado – o poder dos smartphones e podermos pesquisar rapidamente informação sobre, por exemplo, dicas sobre como reduzir o consumo elétrico ou evitar horários de pico ou como usar soluções MaaS e ver qual a solução menos ambientalmente agressiva. Há vários aspetos em que a tecnologia está nas nossas mãos e crescentemente mais acessível aos cidadãos. Acho que é aqui que veremos maior participação dos cidadãos. É também aqui que focamos o nosso trabalho, ouvindo todos os grupos de interesse e fazendo uma pergunta-chave: será que isto é útil ou pode ajudá-lo no seu dia a dia? Outro aspeto em que a tecnologia se prova essencial é em termos de resiliência, quer seja em termos de reação às mudanças promovidas pelas alterações climáticas ou em termos mais gerais. A tecnologia pode ajudar imenso neste âmbito, numa área como, por exemplo, a manutenção preditiva. Há diferentes tipos de tecnologia que nos permitem, por exemplo, verificar quando uma estrada está prestes a precisar de uma intervenção. A tecnologia permite preparar-nos contra uma tempestade, reforçando antecipadamente estruturas que possam estar mais fragilizadas. Por fim, a tecnologia permite-nos estabelecer cidades mais saudáveis e habitáveis. Acho que é aqui que a tecnologia nos pode ajudar a fazer baixar o volume de emissões poluentes, verificando poluição atmosférica ou sonora. Estas são algumas das formas em que a tecnologia pode ter um impacto concreto na vida das pessoas.

No final, as pessoas escolherão sempre a melhor a opção para elas e o preço é sempre um dos principais argumentos para a escolha. Sente que a tecnologia está mais acessível a todos?
Tali:
Penso que sobretudo em termos de transportes públicos, temos de fazer com que as soluções sejam o mais atrativas possível. Se a escolha de usar o Metro ou o autocarro for mais barata, rápida e conveniente, tendo maior previsibilidade do que apanhar um táxi, por exemplo, ficando preso no trânsito, é exatamente isso que queremos. Uma cidade mais eficiente é também uma cidade mais verde. Por isso, no final do dia, o preço é obviamente decisivo em termos de toda a tecnologia, mas se o preço tem um peso, também o têm a conveniência e previsibilidade.

O setor dos transportes é um dos mais poluentes para o planeta. Como poderemos fazer uma transição para um modelo mais sustentável?
Tali: Abordando o transporte sustentável temos de olhar para vários critérios. Temos primeiramente de olhar para eventuais viagens desnecessárias que fazemos, percebendo como podemos ter uma maior integração com transportes públicos, modos mais eficientes, como autocarros e comboios, melhorar a eficiência dos combustíveis e poluição dos veículos, por assim dizer. Tem de ser uma abordagem holística e integrada. Não podemos pensar apenas num aspeto porque não vai trazer os resultados que pretendemos. Os transportes são um tema complexo e que cruza muitas áreas, o que envolve muito mais interação, pelo que penso que seja mais complicado, mas também é uma área com mais potencial de ser trabalho. Uma das coisas que me vem à cabeça é a descarbonização do setor dos transportes. Ainda temos uma grande dependência de combustíveis fósseis e isso tem de mudar e tem de acontecer à medida que o setor energético se for também descarbonizando. Estes dois pontos têm de avançar de mãos dadas. É por isso que na EBRD Green Cities tentamos integrar este pensamento crítico e interdependente entre todos os setores.

Transportes

“Alguém disse que um problema de tráfego com um ‘veículo verde’ não deixa de ser um engarrafamento de trânsito. O que queremos tentar fazer é abordar os problemas de forma holística e com soluções integradas”
Tali Trigg, Principal Green Cities, Electric Mobility

Será que as soluções de micromobilidade podem ser o ‘game changer’ em termos da mobilidade urbana e das dificuldades sentidas no setor dos transportes públicos?
Christina: Se estamos a falar de e-scooters, e-bikes, soluções de last-mile, penso, sim, que é um game changer. Não acho que possa suprimir a necessidade de transportes públicos, mas acho que é uma forma de complementar a oferta que existe. Acho que o futuro tem de ser pensado em termos de multimodalidade, como é que estes novos modos de mobilidade podem complementar os sistemas de transportes públicos e outros modos de mobilidade. Onde vemos casos de sucesso é onde já houve comunicação eficaz entre as autoridades locais e os operadores privados. Quando são largados nas cidades, sem ligação entre autoridades e operadores, sem propósitos comuns, onde devem ser as localizações, como se vai processar a partilhada de dados, não vemos grande impacto ou vemos até um impacto negativo. Nos países em que operamos, a base para a mobilidade ativa, para andar a pé e até de bicicleta é um pouco mais baixa quando comparada com países mais avançados. Neste tipo de cidades é preciso algum trabalho para que as pessoas deixem o veículo próprio, que é algo que vemos muito. Algo que procuramos com o programa Green Cities é este tipo de oportunidades, que nos permitem desenvolver projetos de micromobilidade que possam ser integrados e que levem a uma mudança de paradigma.

A eletrificação é muitas vezes vista como a solução para o setor dos transportes. Nos países em que o EBRD trabalha, dado o estágio de desenvolvimento da maioria desses países, como estão a trabalhar este ponto?
Tali: Primeiro que tudo, não há uma solução imediata para este problema. A mobilidade eletrificada pode ser importante e de forma crescente vemos cada vez mais veículos médios e ligeiros que é onde devíamos apostar e onde há mais potencial imediato. Em termos dos países em que operamos o mercado elétrico ainda está numa fase muito inicial do seu desenvolvimento, mas temos alguns casos de sucesso, como os autocarros elétricos na Bulgária, na Sérvia, na Jordânia… táxis elétricos, ferry elétricos, e-scooters partilhadas… Estamos a trabalhar em diversos projetos que nos entusiasmam. Tendo-me juntado recentemente ao EBRD posso dizer que estou positivamente surpreendido com o trabalho que está a ser desenvolvido nos países que apoiamos. São mercados que estão agora a começar, mas está a ser feito muito trabalho neste sentido, de avançarmos para uma mobilidade mais verde. Temos de procurar modelos de inovação que sejam operacionais em termos locais, portanto coisas que possam não fazer sentido em países ocidentais podem fazer sentido em outros. Mas a transição para uma mobilidade eletrificada é uma maratona e não um sprint, por isso há que mexer muitas peças e temos de continuar a apoiar estes projetos, não só em termos de transportes, mas também do setor energético.

Mas estamos a avançar coletivamente a um ritmo consistente e regular ou estamos a atrasar-nos um pouco?
Tali: Por causa das alterações climáticas, não estamos a avançar tão depressa quanto devíamos. Mas em termos do quão rápido podíamos estar a andar acho que estamos a fazer um bom esforço. Se olharmos para aspetos como a eficiência das baterias, o esforço para baixar o preço das baterias e dos painéis solares, há razões para estarmos otimistas. Se estamos onde precisávamos de estar em relação ao setor dos transportes? Diria que não. Temos de avançar mais rapidamente.

“Por causa das alterações climáticas, não estamos a avançar tão depressa quanto devíamos. Mas em termos do quão rápido podíamos estar a andar acho que estamos a fazer um bom esforço”
Tali Trigg, Principal Green Cities, Electric Mobility

Com muitos dados resultantes da digitalização das sociedades, considera que as comunidades locais estão a usar esses dados de forma otimizada para melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos?
Christina: Um dos pilares da metodologia da EBRD é acelerar a transição digital e como podemos ajudar os países a seguirem por esse caminho. Concretamente no que toca ao programa Green Cities a metodologia que usamos integra um teste de maturidade digital dos países para perceber onde é que as cidades estão em termos de maturidade de dados, dados em tempo real, conetividade e por aí… Dessa forma conseguimos perceber como é que a infraestrutura existente pode ajudar na implementação de soluções ou o que será necessário fazer para melhorarmos os serviços já existentes. Estamos também a ajudar as cidades em projetos como os digital twins em que as cidades onde desenvolvemos trabalho podem observar como é que outra cidades estão a funcionar em termos de dados e quais são os pontos-chave, onde é que têm de intervir, bem como do outro lado do espectro, como por exemplo trabalhar no setor dos transportes para termos dados em tempo real por exemplo nas paragens de autocarro. Em termos de gestão de resíduos, trabalhamos para que os dados possam ser usados para otimizar rotas… Há um conjunto de aspetos da digitalização e dos dados onde podemos ajudar as cidades com quem trabalhamos.
Tali: Em termos de mobilidade eletrificada acho que estamos hoje melhor num sítio melhor que há dez anos. Há cada vez mais software que facilita a vida das pessoas. Vamos olhar para um exemplo no setor dos transportes: hoje, através da integração de software, é possível perceber quando é que durante uma viagem um veículo vai precisar de ser recarregado, isso pode facilmente encorajar um banco como o nosso a perceber que tipo de baterias essa cidade precisará de ter, onde precisará de ter carregadores, tudo se torna um pouco mais real e podemos evitar surpresas.

Os veículos de condução autónomo e soluções de mobilidade pelo céu são muitas vezes entendidos como o futuro dos transportes. Estamos mais próximos de ver este tipo de soluções nas estradas e nos céus?
Tali: Novamente, acho que não há uma solução imediata. Há soluções interessantes, por exemplo o hyperloop ou o hidrogénio, que são apresentadas como a tecnologia que vai resolver tudo e, como seres humanos, queremos naturalmente pensar que uma solução é a solução, mas a solução está em múltiplas apostas ao longo do tempo. Acho que será mais uma coisa de ‘como utilizamos a tecnologia’ do que ‘que tecnologia irá fazer a diferença’. Em termos de veículos autónomos, acho que há potencial em termos de vermos frotas conectadas, especialmente para frotas de transporte, mas se pensarmos em veículos completamente autónomos não vejo como poderá oferecer uma solução para as questões do transporte num futuro próximo.

Quando falamos de descarbonização estamos muitas vezes a discutir este tema apenas com os países do hemisfério norte. Estamos novamente a negligenciar os países do sul?
Tali: Como trabalhamos em diferentes países e economias em transição, o paradigma norte-sul não é particularmente relevante. As fontes de inovação são muito heterogéneas e alguns dos projetos mais entusiasmantes em termos de inovação estão a chegar da América Latina, do Leste de África, de alguns dos países em que operamos como a Turquia, o Tajiquistão, etc. Por isso, penso que, de certa forma, felizmente, a resposta é não. As soluções estão a chegar de diversos pontos do globo e devemos ter a certeza que estamos a ter todas em consideração.

Os materiais usados para a produção de baterias também levantam muitas questões ambientais. Estamos a olhar da forma que precisamos para esta questão?
Christina: Quando trabalhamos um projeto relacionado com a mobilidade elétrica esta é uma diligência que tomamos: olhar para a cadeia de abastecimento. Isso é feito em cada um dos projetos que desenvolvemos e é a nossa forma de trabalhar.
Tali: Acho que é uma boa pergunta e acho que toda a atenção que dispensamos à supply chain é positiva. Em termos de baterias… as baterias estão a tornar-se mais eficientes e, portanto, a usar menos materiais. Também em termos do tipo de materiais estão a ser feitos desenvolvimentos, sendo que as baterias químicas e as por célula estão a evoluir, pelo que estão a afastar-se do cobalto e estamos ainda a afastar-nos mais das baterias de ácido. Apesar de a tecnologia estar a ser desenvolvida, este não deve ser um aspeto para o qual não prestamos atenção, pelo contrário.