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Sustentabilidade

Baterias dos carros elétricos em fim de vida alimentam concertos e jogos de futebol

Sines recebe fábrica de baterias para veículos elétricos de empresa chinesa

A eletrificação será uma das chaves para a descarbonização do Velho Continente, estando, por isso, disponíveis vários incentivos nesse sentido, desde apoios a fundo perdido a benefícios fiscais. Estas medidas são, porém, entendidas como “insuficientes”, asseguram as associações ouvidas por nós, que identificam os principais obstáculos e exemplos a seguir nesta transição.

Numa altura em que a Europa está a tentar reduzir o peso da sua atividade sobre o ambiente, de forma a contribuir para o mitigar das alterações climáticas em curso, a mobilidade elétrica tem conquistado especial destaque. Os últimos anos foram já sinónimo de um aumento significativo das vendas de veículos movidos a eletricidade e espera-se que o futuro traga um crescimento ainda mais considerável desse mercado, o que resultará numa subida da utilização das baterias e, por conseguinte, reforçará a necessidade de se pensar em formas de reutilizar e reciclar esses equipamentos. Isto de modo a evitar o desperdício de matérias-primas essenciais para a transição energética e cuja mineração comporta vários riscos, nomeadamente ambientais. Essas soluções já começam a ser pensadas, mas diz quem anda no mercado que o jogo está ainda agora a começar.
De acordo com as projeções da Comissão Europeia, o mercado das baterias utilizadas, por exemplo, nos automóveis elétricos, deverá valer cerca de 250 mil milhões de euros até 2025. Para reduzir a necessidade de nova mineração face a esse crescimento, os especialistas defendem que é preciso melhorar os processos de reciclagem e reutilização dos equipamentos em causa, caminhos que, por exemplo, a Nissan e a BMW já estão a experimentar, instalando baterias usadas em estádios de futebol e usando-as para alimentar concertos de rock. Mas para perceber a importância dessas novas vidas, é preciso pintar, antes de mais, o quadro da evolução dos veículos elétricos.

“Um crescimento sem precedentes”

Apontados como uma componente relevante da redução das emissões poluentes do Velho Continente e do Mundo, os veículos elétricos têm conquistado adeptos nos últimos anos. “O mercado dos carros elétricos tem registado um crescimento sem precedentes ao longo destes últimos anos”, sublinha Hélder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP). Segundo o responsável, nos primeiros três meses de 2022, o número de matrículas de automóveis ligeiros de passageiros movidos a eletricidade registadas em Portugal cresceu 134,3% face ao período homólogo, ou seja, mais do que duplicou em comparação com o primeiro trimestre do ano passado. Isto depois de em 2021 este mercado já ter disparado 69,3% em relação ao ano anterior.
Também a Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE) confirma esta trajetória. Fonte oficial dessa entidade salienta que em 2021 foram vendidos quase 30 mil veículos alimentados a eletricidade, quando em 2010 as vendas de veículos elétricos e híbridos plug-in pouco ultrapassavam as duas centenas. “E desde o início de 2022 (de janeiro a março), já foi ultrapassada a barreira dos cinco mil veículos”, destaca a associação, que defende que é preciso também ter em consideração, como indicador do crescimento do mercado de veículos elétricos, o aumento do número e valor de incentivos à aquisição de automóveis deste tipo. Em 2021, estava preparada uma dotação de quatro milhões de euros para esse fim, valor que passou para 10 milhões de euros em 2022, observa a UVE.
Outro reflexo do crescimento deste segmento é a própria abrangência desta associação. “Desde a sua fundação, em 2015, que a UVE tem vindo a seguir o crescimento do mercado de veículos elétricos e, consequentemente, da comunidade de utilizadores de veículos elétricos. Em número de associados, passamos de 20 associados (fundadores) em 2015 para 1.020 associados (à data de 28 de abril de 2022)”, conta fonte oficial, que se diz satisfeita com a aceleração do mercado em causa. “O grande catalisador [tem sido], sem dúvida, a consciencialização dos cidadãos perante a urgência em tomar uma atitude para prevenir os efeitos mais nefastos das alterações climáticas”, considera a associação.

“O mercado dos carros elétricos tem registado um crescimento sem precedentes ao longo destes últimos anos”
Hélder Pedro, secretária-geral da Associação Automóvel de Portugal

Ricardo Cardoso, diretor de marketing do Standvirtual, plataforma digital que se dedica à compra e venda de carros novos e usados, também reconhece um salto no interesse por parte dos consumidores pelos veículos elétricos. “Neste momento, já existe uma procura exponencial por veículos elétricos, que tem vindo a crescer de forma muito evidente desde o ano passado”, assegura o responsável. E acrescenta: “Os estudos do Standvirtual mostram que 61% dos condutores consideram comprar um veículo elétrico no futuro, indicando a redução de emissões de carbono (71%) e os baixos consumos (35%) como as principais vantagens.”
De acordo com Ricardo Cardoso, neste momento, o interesse dos consumidores gira, sobretudo, em torno dos veículos novos, “devido ao receio da durabilidade das baterias”, mas há também quem já esteja de olhos nos elétricos usados, uma vez que têm um preço mais acessível. “Podemos dizer com bastante certeza que a curto e a médio prazo os veículos elétricos vão representar a maior parte do negócio das marcas do setor automóvel e prova disso é a aposta que os fabricantes estão a fazer nesta tipologia de carros”, projeta o diretor de marketing, que indica que o mercado irá “crescer organicamente” à boleia da crescente sensibilização para as questões ecológicas, mas também da escalada dos preços dos combustíveis.
“A desmistificação dos carros elétricos com cada vez mais informação disponível, tanto para o comprador como para os vendedores, bem como o reforço da rede de carregamento e incentivos à compra, que em 2022 mais do que duplicaram de uma forma geral, são alguns dos elementos adicionais que vão ajudar ao crescimento deste mercado”, enfatiza.

“Podemos dizer com bastante certeza que a curto e a médio prazo os veículos elétricos vão representar a maior parte do negócio das marcas do setor automóvel”
Ricardo Cardoso, diretor de marketing do Standvirtual

Este crescimento do mercado dos veículos elétricos levanta, contudo, e em paralelo, a questão: o que fazer com as baterias utilizadas nestes automóveis, quando deixarem de ser úteis para este fim? Esta pergunta – que está carregada de preocupações ambientais – não tem passado despercebida a quem investe em veículos deste tipo, assegura quem está no mercado. “Percecionamos um interesse crescente, por parte dos utilizadores de veículos elétricos, com o pós-vida das baterias”, adianta Hélder Pedro, da ACAP. A UVE confirma: “Acreditamos que [o pós-vida das baterias dos automóveis elétricos] está na mente de todos os utilizadores. Embora inicialmente este receio quanto à longevidade das baterias fosse motivado pelos diversos mitos relativos à sua viabilidade, hoje em dia a preocupação de muitos dos utilizadores é motivada pela consciência ambiental.”
A associação enfatiza que é importante perceber, neste debate acerca do impacto ambiental destes equipamentos, que a vida destas baterias não se esgota assim que deixam de servir para alimentar os automóveis. Antes, tem diversas fases, às quais é preciso prestar atenção para avaliar o peso destas baterias sobre o meio-ambiente.

Utilizar, reutilizar e só depois reciclar

O crescimento da popularidade dos automóveis elétricos tem colocado o holofote nas problemáticas ambientais relacionadas com o pós-vida das baterias utilizadas nesses veículos, sendo importante entender as várias etapas pelas quais esses equipamentos passam antes de chegarem, eventualmente, ao fim da linha. De acordo com a associação UVE, a primeira fase da vida das baterias é a sua utilização para alimentar o motor de um veículo elétrico, etapa na qual “sofrem o maior desgaste”. “Uma bateria alimenta de forma instantânea o funcionamento do motor, no momento de arranque, em acelerações e ao manter a velocidade. Embora, por meio da travagem com o motor, possa regenerar parte da energia, o uso de uma bateria na locomoção de um veículo elétrico, pressupõe que esta seja carregada com frequência. Mediante uma utilização cuidada, uma bateria de um veículo elétrico, pode durar mais de 15 anos”, explica fonte oficial. Considerando essa durabilidade média, no mercado português, só agora as baterias utilizadas nos primeiros veículos 100% elétricos ligeiros de passageiros estão a entrar na segunda fase da sua vida: a reutilização para armazenamento de energia elétrica. Esta etapa pode estender-se por mais 15 anos.
Já a terceira fase, salienta a UVE, é a reciclagem. “O conteúdo das baterias de iões de lítio é menos tóxico do que o de outras baterias, o que facilita a sua reciclagem. Contudo, o lítio é um elemento altamente reativo, daí a importância que a [reciclagem] seja efetuada de forma segura e eficiente”, afirma a associação. Neste momento, no Velho Continente, a maioria das baterias são enviadas para a Bélgica e para a Alemanha, países que dispõem de infraestruturas para proceder à correta reciclagem do lítio presente nas baterias. “Quando bem feito, o processo de reciclagem permite remover 95% da matéria-prima, para que esta seja reutilizada em outros aparelhos elétricos e eletrónicos, tal como regressam também a baterias para veículos elétricos”, sublinha a já referida associação, que alerta que só a reciclagem do lítio permite mitigar o impacto ambiental associado à sua mineração (já que, assim, se reduz a necessidade de novas explorações).
A reciclagem de lítio padece hoje, contudo, de um obstáculo: não é um negócio muito rentável. Luís Oliveira, investigador no Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (INEGI) e responsável por vários projetos que estão a tentar tornar a cadeia de valor das baterias mais sustentável, salienta que a reciclagem do lítio “ainda não é economicamente viável”, devido ao baixo custo deste material, mas antecipa que a crescente procura acabe por abrir as portas a esse processo. Em janeiro, o INEGI anunciou, de resto, que irá participar em cinco projetos que se dedicam, nomeadamente, à recuperação e reciclagem de lítio, bem como ao desenvolvimento de baterias de estado sólido de quarta geração, sendo os trabalhos financiados pelo Horizon Europe 2021. O objetivo é contribuir para “uma indústria europeia resiliente, sustentável e competitiva a nível mundial, menos dependente dos seus concorrentes a nível tecnológico e da importação de químicos e matérias-primas”.
De notar que, segundo a Quercus, os principais impactos da mineração do lítio são, nomeadamente, a destruição da paisagem natural, a destruição de ecossistemas e habitats, a libertação de partículas em grandes quantidades sobre a vegetação envolvente num grande raio de influência, o impacto sobre os sistemas de aquíferos e linhas de água superficiais e as emissões de ruído elevadas. Esses efeitos tornam importante reduzir o mais possível a exploração, apostando na reutilização e reciclagem dos materiais já extraídos.

Baterias

Por outro lado, como em Portugal os automóveis ainda não atingiram a marca dos 15 anos, não existe, regra geral, neste momento, a necessidade de reciclar ou dar uma nova vida a estas baterias, mas já começam a aparecer iniciativas focadas nesta questão, ainda que países como a Suécia e a Noruega estejam mais adiantados nesta caminhada. É o caso da VALORCAR, uma empresa criada pela ACAP, que desenvolveu, por exemplo, “um anúncio informativo, referindo que assegura, na sua rede, a recolha e reciclagem das baterias dos veículos elétricos e híbridos quando deixam de servir para este fim”. Hélder Pedro avança que “as baterias recolhidas pela VALORCAR são avaliadas por uma empresa parceira especializada, tendo em vista o seu recondicionamento e utilização para armazenar energia, nomeadamente de fontes renováveis”. A UVE também destaca este projeto e detalha: “Na Sede da ACAP/Valorcar, foram instalados 62 painéis solares fotovoltaicos, com apoio de baterias reutilizadas, e um posto de carregamento para veículos elétricos. Este sistema fotovoltaico será capaz de produzir anualmente cerca de 32 MWh de energia limpa, o equivalente ao consumo anual de 19 habitações familiares, e evitará a emissão de 32 toneladas de CO2”.
Outro projeto que merece ênfase por parte desta última associação é a Arena Johan Cruijff, em Amesterdão, “onde foram instaladas 148 baterias retiradas de Nissan LEAF que carregam com a ajuda de 4.200 painéis solares”. Este foi um dos primeiros projetos deste tipo no Velho Continente, sendo que, atualmente, e numa escala mais reduzida, já são vários os projetos privados de instalação nas residências de utilizadores de veículos elétricos de sistemas de produção de energia (painéis fotovoltaicos, maioritariamente) que são conjugados com as baterias em causa. Esses utilizadores conseguem, deste modo, “ser independentes da rede pública”, frisa a UVE. Por outro lado, também no seio das próprias marcas do setor automóveis, têm surgido iniciativas focadas na pós-vida das baterias.

Baterias alimentam estádios de futebol, linhas de comboio e até concertos

Ainda que os automóveis elétricos tenham uma pegada carbónica inferior à dos veículos ditos tradicionais, tal não basta para atingir a “verdadeira sustentabilidade”. É preciso também que as suas baterias tenham múltiplas vidas. Quem o diz é a Nissan, marca que ainda antes de apresentar ao mercado o primeiro LEAF (o carro elétrico mais vendido) em 2010 já tinha estabelecido uma parceria com vista a desenvolver a tecnologia e a infraestrutura necessárias para reformular, reciclar, revender e reutilizar baterias. Hoje, esta fabricante tem várias iniciativas em curso com estes objetivos em mente, em diversas geografias. “A Nissan tem a vantagem de ter sido pioneira e, por isso, estamos já a trabalhar em muitas soluções para a reutilização das baterias dos nossos automóveis elétricos. Já estamos a tornar energeticamente independente um estádio de futebol (Amsterdam Arena), que utiliza painéis solares e baterias em segunda vida, para não só ser autossuficiente como ainda fornecer energia a outras empresas e à rede elétrica de Amesterdão”, conta fonte oficial desta empresa.

Baterias

“A Nissan tem a vantagem de ter sido pioneira e, por isso, estamos já a trabalhar em muitas soluções para a reutilização das baterias dos nossos automóveis elétricos”
Fonte oficial da Nissan

Além da iniciativa, no Japão, a Nissan está a trabalhar com a ferrovia para instalar baterias recondicionadas nas passagens de nível, “por forma a garantir que não existem falhas de energia”. Já em Espanha, esta fabricante instalou na central elétrica da Endesa em Melilla um conjunto de baterias para apoiar a produção de energia nas alturas de picos de consumo. Em causa está um projeto que foi selecionado pelo World Economic Forum como “iniciativa membro” pelas suas valências na economia circular, salienta fonte oficial da marca, que revela que a procura por automóveis elétricos tem aumentado “exponencialmente” na última década. A Nissan promove, além disso, “programas de assistência a populações em áreas afetadas por catástrofes naturais, com abastecimento de eletricidade a partir dos LEAF” e está agora a preparar também a instalação de infraestruturas de reciclagem de baterias no Velho Continente, “à medida que a disponibilidade de baterias de segunda vida aumenta.”
Já a fabricante alemã BMW, a pensar no pós-vida das baterias dos automóveis elétricos, estabeleceu uma parceria com a Duesenfeld, empresa especialista em processos de reciclagem ecológicos, com vista a “desenvolver um método que garante uma taxa de reciclagem acima dos 90%, incluindo grafite e eletrólitos”, dos componentes utilizados nesses equipamentos. João Trincheiras, corporate communications manager do BMW Group, explica, por outro lado, que as baterias dos veículos têm sido utilizadas em sistemas de armazenamento estacionário, que têm sido montados nas instalações desta marca em todo o mundo.
“Estamos a integrar as energias renováveis na rede elétrica, aumentando a sua estabilidade e reduzindo os custos da energia. Além disso, a economia circular desempenha um papel crucial quando se trata de baterias de alta tensão para veículos eletrificados, que utilizam uma série de matérias-primas essenciais. Continuamos, por isso, a apostar em projetos inovadores, como o que está a decorrer com a tour dos Coldplay”, frisa o responsável.
Em maior detalhe, a conhecida banda britânica anunciou, no final de 2021, que a sua próxima digressão seria alimentada a energia limpa. Como? Com a ajuda de baterias usadas do BMW i3. Em vez de geradores com combustíveis fósseis, os Coldplay escolheram recorrer a 40 baterias recondicionadas como fonte de alimentação dos seus espetáculos ao vivo. A BMW já se disponibiliza também para recolher de modo gratuito as baterias de alta tensão de qualquer cliente, prometendo dar-lhes, depois, novas vidas e, assim, promover a eletrificação das economias, sem agravar a procura dos materiais que proporcionarão a transição para um mundo mais sustentável.

Baterias

“O BMW Group já oferece a devolução gratuita de baterias de alta tensão de qualquer cliente – e isto aplica-se mesmo em regiões onde tal não é exigido por lei”
João Trincheiras, corporate communications manager do BMW Group